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Devastação no Cariri


Estudo de pesquisadores da UEPB e UFPB mostra crescimento da devastação em serras do Cariri.

A preocupação com o meio ambiente e com a conscientização da população acerca da necessidade de preservação da fauna e da flora nordestina levou um grupo de 15 pessoas, entre alunos, professores e pesquisadores da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e Universidade Federal da Paraíba (UFPB) a desenvolver um estudo nas regiões serranas do Cariri e Curimataú da Paraíba.

O trabalho intitulado “Serras: Refúgios da Caatinga no Cariri Paraibano” tem por objetivo diagnosticar a realidade das serras localizadas em 22 locais do Estado, espalhados pelos municípios de São João do Cariri, Cabaceiras, Boqueirão e Arara.

O projeto vem sendo desenvolvido desde o ano de 2007, e começou a apresentar resultados recentemente. Entre as primeiras constatações, está a crescente devastação ambiental verificada em muitos locais explorados. De acordo com especialistas, a Caatinga paraibana, vegetação predominante nas serras estudadas, já possui um nível de comprometimento superior a 50%.

De início, o grupo pretende mapear onze áreas situadas no Cariri Oriental do Estado e após isso expandir a área de atuação do trabalho de campo. “Nosso trabalho está iniciando, em fase de coleta de dados, no entanto já podemos constatar que embora mais conservadas do que as áreas de planícies, no Cariri, as serras já sofrem agressões. A falta de alternativas ao homem do campo da região, já os condicionam a buscar recursos em áreas anteriormente preservadas”, disse a professora Dilma Trovão, doutora em Recursos Naturais e professora do Departamento de Biologia da UEPB, que coordena a pesquisa.

Processo é claro perto de bacias hidrográficas

De acordo com a tese de Eduardo Rodrigues, as áreas onde o processo de desertificação está mais acentuado e concentrado localizam-se nas terras próximas das maiores bacias hidrográficas da região (Paraíba e Taperoá), devido a presença de várzeas expressivas que favoreceram o processo de ocupação que vem se desenvolvendo a séculos no Cariri.

Segundo ele, as ações das políticas públicas, particularmente os incentivos à caprinocultura, passaram a exercer papel fundamental no aumento dessas áreas, em quantidade e intensidade, devido à forma semiextensiva com que esses animais são criados e as alterações na estrutura fundiária da região e a superpastagem.

As análises laboratoriais realizadas para identificar possíveis alterações nos solos, em decorrência da desertificação, mostraram problemas de elevação da salinidade nas áreas irrigadas, o que já afeta parcialmente a agricultura praticada nessas terras. Em relação à fertilidade, mesmo nas áreas desprovidas de caatingas, não foram constatadas modificações nesse parâmetro.

Tese faz mapa da desertificação

A desertificação na microrregião foi objeto também da tese de doutorado de Eduardo Rodrigues Viana Lima, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sob o título “Cariri paraibano: do silêncio do lugar à desertificação”. A apresentação ocorreu no ano passado.

No estudo de Eduardo, tomando por base o processo histórico de ocupação e povoamento do Cariri, a análise qualitativa da vegetação, através de bioindicadores (diversidade, densidade e estratos) e o uso de técnicas de sensoriamento remoto e geoprocessamento, foi efetuado o mapeamento da desertificação na região.

Entre os resultados encontrados, verificou-se que no período (2005/2006), a área atingida por esse processo, em todos os níveis analisados (Moderado, Grave e Muito Grave), correspondeu a 77,4% de toda a região. Ainda de acordo com a tese, de 1989 a 2005/2006, houve um aumento de cerca de 14,6% em relação a esse tipo de degradação.

No período pesquisado, o maior crescimento da desertificação ocorreu no Cariri Ocidental. Na identificação e quantificação das áreas desertificadas, o uso de imagens de satélite próximas do final da estação chuvosa na região, apresentou respostas mais satisfatórias que as imagens da estação seca. A análise das imagens de satélite através do uso da classificação Não Supervisionada respondeu melhor ao que foi verificado em campo que o IVDN.

Ibama fez mais de 100 autuações em 2008

Quem descumprir a legislação ambiental brasileira e devastar o meio ambiente, ou permitir que alguém o faça, poderá pagar um preço alto e será obrigado a restaurar o dano provocado ao meio ambiente. Na região de Campina Grande, a incidência de casos em que proprietários de terra e moradores são flagrados desrespeitando a natureza é grande. Dados do escritório do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama) sediado no município revelam que mais de 100 foram notificados e autuados, somente no último ano.

De acordo com o Ibama, nos casos em que são detectados prejuízos ao meio ambiente os infratores são obrigados a recompor os bens naturais destruídos. “Quando constatamos, por exemplo, que a vegetação de uma área de preservação foi cortada para dar lugar a um plantio, o infrator tem que reservar uma área semelhante para recompor a vegetação, além de pagar uma multa de R$ 5 mil por hectare degradado.

O infrator também tem que apresentar um Projeto de Recuperação de Áreas Degradadas (PRAD)”, alertou o chefe do órgão em Campina Grande, João de Deus Farias.

Além da região da Borborema, o Ibama campinense fica responsável ainda pela cobertura de localidades do Cariri, Curimataú e parte do Sertão do Estado, totalizando 63 municípios. Segundo João de Deus Farias, as fiscalizações têm sido constantes e buscam, além da autuação dos infratores, a conscientização da população.

“A falta dessa consciência nas pessoas, infelizmente, é ainda o nosso maior obstáculo”. A declaração é de João de Deus, do Ibama. De acordo com o Código Florestal, lei 4771/65, todas as áreas onde há vegetações e fauna nativas, além de rios e lagos ou regiões serranas são protegidas e consideradas áreas de preservação ambiental.

Para a professora Dilma Trovão, o futuro das serras e da vegetação da caatinga deve ser pensado com cautela. “Se já comprometemos as áreas planas e resta ainda alguma vegetação nas serras, provavelmente essas áreas serão as próximas vítimas. A preocupação que surge é a que onde iremos parar com esta destruição avassaladora? Continuaremos a reduzir a biodiversidade?”, indagou.

Retirada de lenha compromete as áreas

Segundo Dilma Trovão, a retirada de lenha de matas nativas, o plantio em encostas de rios e lagos e a criação de animais têm comprometido cada vez mais as áreas. “Com isso há o desencadeamento de vários efeitos desagradáveis. Facilmente ocorrerá a erosão, o processo de evaporação será mais intenso e menos água ficará retida neste solo”, alertou a professora. Além do desaparecimento de plantas nativas, a degradação do meio ambiente também provoca efeitos negativos na fauna presente na caatinga.

Para os pesquisadores, é preciso adotar medidas emergenciais e promover a conscientização da população que reside próximo às serras. “É papel de todo cidadão conhecer, proteger, conservar e conviver com os ecossistemas. Estamos tendo dificuldades de acessar algumas áreas, porque os proprietários têm medo da gente”, frisou Dilma Trovão.

A expansão das cidades, a exploração mineral e da madeira existente nas regiões serranas do Estado estão entre os principais motivadores da depredação ambiental. No entanto, conforme a pesquisadora, é possível estabelecer um modelo que contemple o progresso com o respeito ao meio ambiente. “Tudo depende de um planejamento bem gerenciado. Dá inclusive para prever os problemas ambientais decorrentes de obras e decisões. Precisa-se de um aparato técnico e do apoio das comunidades envolvidas”, observou.

taperoa.com
JP

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