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O néctar do Cariri

Pinhas cultivadas em Tenório se destacam pelo doce sabor, polpa grossa e sementes pequenas.

O Sítio Cachoeirinha é uma porção de terra branca situada na zona rural do município de Tenório, no Cariri paraibano, a 233 Km da Capital, onde os pés de pinhas nascem espontaneamente, talvez originados por algum elemento dispersor. Pinhas cultivadas em Tenório se destacam pelo doce sabor, polpa grossa e sementes pequenas.

O Sítio Cachoeirinha é uma porção de terra branca situada na zona rural do município de Tenório, no Cariri paraibano, a 233 Km da Capital, onde os pés de pinhas nascem espontaneamente, talvez originados por algum elemento dispersor. Sabe-se, desde os tempos pioneiros, que tropeiros em demanda do Sertão, Litoral e Curimataú, quando por alí passavam, deliciavam-se com as frutas verdes de polpa branca e caroços negros que abundavam na região. Seja em plantio nativo ou selecionado, esses brotos já se tornaram tão famosos na Paraíba, que todos os conhecem, apenas, pelo sabor. E por que as pinhas de Tenório gozam desta fama? Simples.

O agricultor João Jorge Gomes, 64 anos, que há 40 planta pinhas, cajus e mandioca, sustenta que as pinhas tenorenses possuem a polpa grossa, as sementes pequenas e o sabor mais doce que o normal. Também são naturalmente grandes e mais resistentes às doenças, justamente porque nascem num solo não contaminado, como os tabuleiros da caatinga caririense. Estas terras só necessitam de chuva e adubo natural para safrejar. Então, é por isso que as pinhas do local são diferentes.

Recentemente, dois apicultores do Rio Grande do Norte foram até a zona rural do Tenório, com um objetivo: investigar o alimento consumido nesta área pelas abelhas italianas. Esses insetos davam um mel de boa textura e sabor. E qual era o segredo? Após exaustivas observações, foi descoberto que elas se alimentavam da flor das pinhas, daí formando um néctar sem igual. Estava decifrado o mistério do sabor deste excelente mel. Os aripuás, que também são uma espécie de abelha, deliciam-se com as pinhas locais, e são a única praga que, de leve, ameaçam a integridade das pinhas de Tenório.

O Tenório tem uma tradição na produção de pinhas. Jorge, que mora no Sítio Cachoeirinha há 11 anos, desde menino ouvia falar do sabor das pinhas da terrinha. Um dia, ele resolveu vender tudo que tinha em Juazeirinho e comprou o Sítio Cachoeirinha, dentro de Tenório. "A primeira coisa que fiz foi provar das pinhas para ver se a fama era merecida", conta. "Aí, na primeira bocada constatei que tudo era verdade". Ele encontrou alguns pinhais nativos dentro de sua propriedade. Plantou mais uma meia dúzia de pés de pinhas. Na safra, que vai do final de março ao princípio de junho, ele vende a pequena produção. Outros plantadores vizinhos mandam pinhas para Juazeirinho, Campina Grande e João Pessoa.

Os diversos compêndios de fruticultura existentes no Brasil dão a pinha com o nome científico de Annona squamosa. Popularmente também é conheida por ata ou fruta do conde. Contém quantidade concentrada de vitamina C e potássio, além de vitaminas do complexo B. Os homeopatas receitam pinhas para combater a desnutrição e a anemia. É aconselhada para os convalescentes. O alto teor de glicose que detém a faz destacar-se como fruta energética. A glicose é importante na produção da energia muscular e cerebral.

Muita gente pode estranhar, mas essa deliciosa fruta verde – em alguns lugares é cinza escura – não é de origem brasileira. Há quem afirme ser originária dos Andes ou da Amazônia. Outra corrente de botânicos e agrônomos defende que a pinha veio da Jamaica e de regiões vizinhas. Ela passou a ser chamada de fruta do conde, em homenagem ao Conde de Miranda, que a introduziu na Bahia, em 1626 (Caminhoá, 1877).

A disseminação da pinha em solo nordestino é devido ao clima. No Cariri paraibano, onde existem a maior quantidade de pinhais nativos ou selecionados, as pinhas robustas que nascem no Semi-Árido confirmam isto. Estudos realizados por técnicos brasileiros revelaram que os pássaros, morcegos e um tipo de rato são os principais agentes propagadores dos pinhais nativos. Esses animais consomem a polpa e espalham as sementes. A chuva e o vento se encarregam do resto.

Em Taperoá, numa região próxima da Serra do Pico, uma equipe de biólogos encontrou sementes de pinhas dentro de uma grota habitada por morcegos. Um dos técnicos confidenciou que o esterco desses animais, depois de seco, serve de adubação. A partir daí, algumas mudas surgem espontaneamente. É o papel que a natureza desempenha, para perpetuar uma espécie vegetal.

Outra qualidade observada nas pinhas de Tenório é que a adubação orgânica não prejudica o sabor da fruta e que os pinhais, para safrejar, só precisam de estrume de boi e de água da chuva. "A terra do Cariri, depois de assim estrumada e irrigada, é a melhor do mundo", lembra Jorge. "Se a chuva caísse aqui todos os anos, a gente vivia num verdadeiro paraíso". Com tantas qualidades assim, o solo de Tenório, atualmente, é explorado por mais de 180 proprietários plantadores de pinhas.

Ninguém sabe ao certo, o quantitativo da produção. Ao perguntar isto a um dos plantadores, ele respondeu: " O sr. já comeu as pinhas vendidas na BR-230?" Respondi afirmativamente. Ele acrescentou: "pois, se alguém conseguir contar aquelas dali e as que vão para João Pessoa e o Rio Grande do Norte, certamente ficará sabendo a quantidade de caixas de pinha que a gente produz aqui". Calei-me. A mim só interessava uma base numérica. Mas não há controle sobre isso.

Este ano, por exemplo, a quantidade de pinhas produzidas no Tenório é uma interrogação. A chuva foi pouca, alguns pés safrejaram e outros atrofiaram os frutos. A paisagem está verde no Cariri, mas a chuva ainda é insuficiente para juntar água nos açudes, incrementar a safra de frutas, milho, feijão e mandioca. Mesmo assim, as pinhas de Tenório continuam competindo com as de Assunção, Taperoá, Teixeira e Maturéia. Na BR-230, ponto tradicional de vendas de pinhas, cada bacia com 10 unidades é vendida, agora, a R$ 4,00. A pinha está sendo vendida a quarenta centavos. Nas feiras livres de João Pessoa, Guarabira e Campina Grande, o preço dobra.

Jorge, experiente com a agricultura, olha para os pinhais e cajueiros de seu sítio e arrisca uma previsão: "este ano o inverno nem vai ser ruim nem bom. Será como uma seca verde". A chuva que caiu no Cariri até o dia 25 de abril prenunciava ser boa. O agricultor desanimou porque, em algumas áreas, o milho está empendoado, a pinha inchou, o caju chorou e a chuva não apareceu, para completar seu ciclo de irrigação natural. Uma parte do feijão vingou.

Nesses anos todos, segundo Jorge, as maiores chuvas foram as de 1967 e de 2004. "Os açudes arrombaram e os riachos encheram para esborrotar", lembra. Os sítios da região são cortados pelos riachos da Carneira e do Tenório. Mas, em 2007, eles não botaram muita água. A maior seca regional foi registrada em 1958. No Cariri, como a seca está sempre presente, o agricultor já se acostumou com ela. "Esse negócio de o inverno ser ruim nos anos ímpares pode ser verdade, mas seca de 1958 desmentiu tudo", compara Jorge.

As poucas chuvas que deram iniciaram o período de engorda dos bodes e bois do Cariri, que além de palmas, pasto e ração, também comem pinhas com casca, sementes e tudo. No sítio de Jorge os perus ficam inquietos dentro de um gradio. Estão gordos. Logo, serão comidos ou comercializados. As galinhas ciscam o terreno ainda úmido. Apesar de ser nove horas da manhã, o frio é como se fosse ar-condicionado. Já no final de abril, o frio é uma atração no Cariri. O sol surge morno. O vento é forte.

Tradição

Rodamos por uma boa parte da zona rural de Tenório. Os pinhais se destacam nos tabuleiros de areia branca. Cajueiros, também. A população predominante no Sítio Cahoeirinha é de brancos com olhos verdes e azuis. Jorge deu logo a explicação. Alí, todos são parentes. É um clã formado por aproximadamente 40 pessoas. Também há um costume cultuado desde os tempos pioneiros de haver casamento entre parentes próximos. Principalmente com primos legítimos. As casas são pouco distantes entre si e as culturas agrícolas quase se misturam. O clima de trabalho entre os agricultores e o relacionamento é de cordialidade.

taperoa.com
A União – Hilton Gouvêa (texto) – Branco Lucena (fotos)

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