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Cenarista de Taperoá

João Joaquim, cenarista da Pedra do Reino, é considerado um dos maiores artesãos da Paraíba.

A mitologia grega cita que Pan, o deus das florestas, campos e rebanhos, possuía grande habilidade com a flauta para seduzir mulheres. Este ser, embora muito sensível a música e a poesia, também sabia ser severo com os caçadores de animais selvagens e os predadores da natureza. João Joaquim, cenarista da Pedra do Reino, é considerado um dos maiores artesãos da Paraíba.

A mitologia grega cita que Pan, o deus das florestas, campos e rebanhos, possuía grande habilidade com a flauta para seduzir mulheres. Este ser, embora muito sensível a música e a poesia, também sabia ser severo com os caçadores de animais selvagens e os predadores da natureza.

A mesma maestria que o levava a tocar o instrumento sedutor, também o fazia aplicar castigos em quem se intrometia nos seus domínios. João Joaquim da Silva, 53 anos, é um pedreiro como tantos outros existentes em Taperoá, a 222 Km da Capital. Mas ele demonstra que a mão forte que empunha a colher para rebocar paredes, também sabe pegar no lápis, régua ou esquadro, para produzir cenários de filmes e peças artesanais de fino gosto.

De aparência simples e modesto de espírito, Joaquim, que está na lista dos melhores artesãos da Paraíba, trabalhou no setor de arte do cenário da minissérie a Pedra do Reino, recentemente rodada pela TV Globo, em Taperoá. Ele não lembra, exatamente, o que construiu ali, naquele cenário fabuloso. Mas, alguns amigos garantem que o próprio Luís Fernando de Carvalho, diretor das filmagens, perguntou se havia alguém na cidade, capaz de ajudar o técnico global na montagem de algumas cenas. Trouxeram Joaquim, que deu conta do recado.

Simultaneamente, Joaquim trabalhou como pedreiro, marceneiro, artesão, carpinteiro. Fez de tudo. Obteve um contrato de seis meses. "Não fiquei rico, mas não me queixo", diz, com a simplicidade típica das pessoas sinceras. Monossilábico, Joaquim só enfrentou uma dificuldade: o chefe da montagem dos cenários gostava de conversar. O taperoaense só falava o necessário. No final, os dois se entendiam muito bem. Atualmente, Joaquim mantém uma lojinha de artesanato na Rua Pedro de Farias, 103, em Taperoá, onde turistas do Recife, Rio, São Paulo e Paraíba passam todas as semanas, ora para encomendar peças, ora a fim de comprar as que já estão na prateleira.

Joaquim, que há 20 anos optou pelo artesanato, diz que esta atividade, hoje, é bem valorizada na Paraíba, graças ao trabalho de escoamento e divulgação que o Governo do Estado realiza, através do Projeto A Paraiba em Suas Mãos. "O artesão paraibano é respeitado em qualquer lugar do país. Os turistas nacionais e estrangeiros elogiam nossas peças, sejam primitivas ou estilizadas", lembra. A primeira peça encomendada a Joaquim foi um carro de boi, em 1987. De lá para cá, não parou mais.

O artesão conta que há alguns dias um turista estrangeiro chegou na sua loja e encomendou um quadro de óleo sobre tela, destacando as palmas forrageiras do Cariri. Joaquim aprontou o trabalho e o entregou em tempo hábil. O comprador explicou que dentro de alguns meses Taperoá vai sediar o Simpósio Estadual sobre Palmas e Cochonilhas. O quadro ficará exposto no meio do auditório. Será visto por agrônomos de todo o Brasil. Cochonilha é o nome da praga que atualmente ataca os plantios de palmas de Pernambuco e cidades fronteiriças da Paraíba.

Ele considera esta encomenda fora do comum. A maioria dos turistas que visitam a loja de Joaquim gosta mais de adquirir burrinhos de carga, coco esculpido e, principalmente, esculturas em madeira ou argila que exibam cabeças de bode com grandes chifres. Quando trabalha como pedreiro e o contratante revela gosto pela arte, Joaquim avisa logo: "Se o senhor quiser eu faço uma escultura no jardim, terraço, beiral ou frontispício". O cenarista de Taperoá é assim: trabalha com madeira, argila, cimento, coco e buchas vegetais. A coisa mais simples que cair em suas mãos é transformada em arte.

As peças arrojadas, sejam primitivas ou de fino gosto, são criadas por Joaquim indistintamente. As bonecas confeccionadas com buchas vegetais atraem o olhar dos visitantes. São de acabamento esmerado, vestidas com roupas em moda, destacando cabeleiras de todas as cores na cabeça. Os carros de bois dentro de garrafas revelam o carinho, a paciência que o artesão emprega em seu trabalho. Cada pecinha do carro de boi é introduzida dentro da garrafa, através do gargalo. Uma encomenda assim leva dois dias para ser montada.

Os carros de boi em madeira conquistam a preferência popular porque divulgam o quotidiano regional. Ao lado, flores coloridas enfeitam quadros que retratam a natureza de diversas formas, destacando o ângulo ecológico. A escultura solitária do vaqueiro e o boi comprovam que no Cariri este tipo regional ainda está vivo e que o trabalho de pegar bois soltos na caatinga é o mesmo desempenhado pelos ancestrais portugueses e espanhóis, que chegaram a região no Século XVII, como criadores de gado.

Os porta-chaves feitos com catemba de coco lembram o artesanato litorâneo. Joaquim esclarece que não há nenhuma influência neste sentido, já que o côco, como o caju, é um fruto disperso por todas as regiões fisiográficas do Estado, graças ao seu poder de adaptação a diversos solos e climas. "Ora, se a gente tem muito coco por aqui, é só botar a imaginação para funcionar que a arte sai", explica.

Os jumentos carregados de barris de madeira são cenas típicas do quotidiano nordestino. A construção de barragens, a adoção do carro-pipa e a perfuração de poços artesianos nas áreas urbana e rural do interior minimizaram a situação. Mas, como uma relíquia do passado, o transportador de água ainda existe. É um tipo regional em extinção que ainda não acabou. Daí porque o almocreve que fustiga os burros carregados com barris de água ainda é uma das principais inspirações de Joaquim.

A cabeça de bode com chifres esculpida em coco representa, hoje, a maior riqueza do Cariri. Principalmente de Taperoá, onde o escritor Ariano Suassuna e seu primo Manoelito Villar, criam uma variedade de caprinos e ovinos de raça, cujo plantel é conhecido em todo o Brasil. "O bode é uma riqueza presente entre nós. Já faz parte da nossa cultura e não pode ser esquecido em arte nenhuma", reconhece Joaquim. A minissérie a Pedra do Reino inclui cenas inéditas de rebanhos de caprinos e ovinos na zona rural de Taperoá.

Joaquim não é o único de Taperoá a contribuir para a riqueza do folclore. Existem outros artesãos de igual quilate. Basta uma olhada na Casa do Artesanato mantida pela Prefeitura e verificar que existem mais de 50 artesãos associados. Ali se tem uma idéia da diversificação dos artesanatos produzidos em Taperoá. No terraço da instituição, um cavalo de modelo legendário, montado sobre rodas, correntes e pedais, desperta a atenção do visitante. Foi utilizado no cenário da minissérie a Pedra do Reino. Infelizmente, não foi possível um contato com o seu autor.

Os Cambindas, famoso grupo de danças folclóricas de Taperoá, é conhecido nacionalmente. A história dos Cambindas retroage aos tempos do Império. E a liderança do grupo é passada de pai para filho há mais de 100 anos. Com tanta bagagem cultural nativa, não é de admirar que a TV Globo tenha escolhido Taperoá para as filmagens da minissérie a Pedra do Reino, romance imortalizado por Ariano Suassuna. Luzinho, dono de um popular restaurante da cidade, conta uma história sobre o assunto. Diz que certa vez um visitante, com ares de deboche, perguntou se em Taperoá havia quem fabricasse freio prá jumento.

Calmíssimo, sem se perturbar, Dudu Villar respondeu: "Qual é o ano do jumento?". Dudu Villar, de saudosa memória, era oficial de justiça. Conhecia os nomes e as famílias de Taperoá de cor. Quando ia intimar, seguia para o endereço, sem ler a notificação. De antemão, sabia o nome do réu ou da vítima.

Foi casa

Horácio de Almeida, em História da Paraiba I, diz que Taperoá, apesar de situar-se em domínios dos índios Cariris, possui um etmo de origem tupi. É uma forma contrata de tape-uara, que significa a tapera, lugar onde foi a casa do homem, ruína. Um dos primeiros nomes dados ao atual município de Taperoá foi Batalhão.O município, agora, luta para cobrir um récorde que pertence a Natal, capital do Rio Grande do Norte. Na Serra do Pico, a 12 Km de Taperoá, existe um cajueiro de 45m de altura. A Prefeitura espera a visita dos avaliadores do Guiness Book, para ver se vence ou não a disputa. O cajueiro de Natal, situado na praia de Pirangi, até agora é tido como o maior do mundo. Ele é grande no sentido horizontal.

taperoa.com
A União – Hilton Gouvêa (textos) – Marcos Russo (fotos)

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