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Celso Mariz

Celso Mariz, que seria notável em qualquer lugar em que tivesse vivido, veio ao mundo no sítio Escadinha, do Município de Sousa, no sertão paraibano, em 17 de dezembro de 1885.

Foram seus genitores o Dr. Manuel Marques Mariz e D. Adelina de Aragão Mariz, ele bacharel em direito pela Faculdade do Recife, turma de 1872. Faleceu o Dr. Manuel em 16 de março de 1888, quando o filho ainda não contava três anos de idade. Seu padrinho era o Dr. Félix Joaquim Daltro Cavalcanti, natural de Cabaceiras, bacharel de 1880 Pela Faculdade de Direito do Recife, que morava numa fazenda no então distrito de Catingueira, integrante do velho e extenso Piancó, onde exercia o cargo de Juiz municipal. Catingueira foi cenário dos primeiros anos da vida de Celso. Mas não demorou muito por lá, pois o padrinho, Félix Daltro, foi nomeado Juiz de Direito da comarca de Taperoá, que havia sido criada pelo primeiro governador da Paraíba, do período republicano, o Dr. Venâncio Neiva. Trouxe o afilhado e filho de criação para Taperoá, e foi ali que o menino se fez estudante matriculado na escola do velho professor Minervino Cavalcanti.

O Dr. Félix era amigo de Dom Adauto Aurélio de Miranda Henriques, Bispo da Diocese da Paraíba. Quando Celso já estava aí pelos seus dezesseis a dezessete anos, o padrinho o trouxe para o Seminário, na Capital do Estado, onde ficou como aluno ouvinte. Após algum tempo de assiduidade e aprendizagem na casa de ensino religioso, estava em 1904 se iniciando no jornalismo, mas voltou para Taperoá.
Foi conselheiro municipal (vereador dos tempos de hoje). Lia tudo, desde jornais que chegava pelo correio, co atraso de semanas, a livros do padrinho e de que os tivesse para dar-lhe ou emprestar-lhe.

No começo do século XX, a Amazônia fascinava e atraía os nordestinos. A borracha enriquecia alguns, e as cidades, especialmente as Capitais Manaus e Belém, experimentavam o esplendor da riqueza. Lá surgiam jornais e revistas e ambiente propicio às atividades culturais. Um irmão de Celso, Romeu Mariz, jornalista e poeta, estava em Belém, em fainas da boa imprensa que ali se praticava e também participando da política como deputado estadual. O afilhado de Dr. Félix se pôs nos caminhos da Hiléia beira-mar, onde se enfiou num vapor que conduzia passageiros e cargas, tocando de porto em porto, até alcançar o Pará. Deslocou-se depois para Manaus. Eram muitos paraibanos que se destacavam no Norte, notadamente em Belém, como advogados, magistrados, poetas, jornalistas.
Mas Celso acabou retornando à terra natal em 12907, aos 22 anos. Andou pelo sertão, tendo sido professor público em Catolé do Rocha, onde casou com D. Santina Henriques de Sá. Nomeado Inspetor Regional de Ensino, percorreu todo o Estado da Paraíba, sempre a cavalo. Nessas vilegiaturas, conheceu cidades, vilas, povoados e fazendas. Graças ao penoso e constante trabalho de inspeção de escolas, colheu material para escrever o primeiro livro, que intitulou ATRAVÉS DO SERTÃO, editado em 1910.

Voltou a Taperoá, onde se fez conselheiro municipal, sob a inspiração e cobertura do padrinho e pai aditivo, o velho chefe político Félix Daltro. A comarca de Taperoá foi extinta, mais o Dr. Félix continuou ali, como prefeito, tendo sido também deputado estadual em várias legislaturas.
Em fins de 1913, Celso Mariz veio à Capital, trazendo de Taperoá, em sua companhia, o rapaz Antônio Menino dos Santos, o pretinho que iria ser entregador de jornais na cidade, e que anos depois ingressava em A UNIÃO, onde foi chefe de portaria durante decênios. Faleceu há pouco tempo, aos 104 anos de idade. No ano seguinte, 1914, Celso e D. Santina fixaram-se em definitivo na cidade de Paraíba. Foi nomeado Diretor da Secretaria da Assembléia Legislativa, cargo que exerceu até 1930, quando se deu a dissolução do Poder Legislativo. Dantes, quando estivera na Capital, integrou a redação do jornal O COMÉRCIO, do imortal Artur Aqueles, e colaborava em A UNIÃO.

Em 1915, fundou o jornal A NOTÍCIA, órgão que expressava as idéias dos chamados “jovens turcos”, grupo de plumitivos políticos, alguns já bem iniciados nas lides partidárias, filiados à orientação do grande Epitácio Pessoa. Celso foi deputado na décima legislatura, de 1924 a 1927, quando a Paraíba era governada por João Suassuna. O governo seguinte foi o de João Pessoa, que o nomeou diretor de A UNIÇÃO. Ficou por pouco tempo no velho jornal, pois voltou à Assembléia, retomando a direção da Secretaria do legislativo. Em fins de 1930, foi nomeado Inspetor Federal junto ao Liceu Paraibano. Competente, dono de invejável capacidade de redação e de bom tirocínio administrativo, foi convocado pelo governador Argemiro de Figueiredo (1935 – 1940) para ocupar os cargos de Secretário do Governo e também da Agricultura, Comércio, Viação e Obra Públicas, a Pasta mais importante do Estado. Também ocupou a Diretoria do Departamento de Educação. Encerrou suas atividades no Serviço público em 1950, como Secretário do Governo na gestão do governador José Targino da Consta (1950 – 1951).

Dedicado ao jornalismo e às letras e conhecendo palmo a palmo a Paraíba, discorria sobre qualquer tema relacionado com a administração e a política estaduais. Tinha memória prodigiosa a que aliava o gosto pela anotações e pesquisa. Em qualquer ambiente era alvo das atenções dos circunstantes pela excelente prosa que sabia manter. Entremeava diálogos com boa verve. Nas visitas qe fazia detinha-se por pouco tempo. Onde mais demorava era no Clube Cabo Branco, no centro da cidade, reencontrando amigos e velhos conhecidos e participando dos jogos de gamão e de cartas. Amigos e admiradores do saudoso mestre, um deles o historiador Deusdedit Leitão, lamentam ainda hoje o desperdício de tempo de Celso, que poderia ter escrito mais livros se não ficasse por horas e mais horas no Cabo Branco. Gastando conversa e se entretendo com jogos.

Deixou acervo valiosíssimo para a cultura e história da Paraíba. Escrevia ao correr da pena, em vernáculo simples e escorreito. Reconstituía fatos e personagens do passado, enriquecia as narrações com detalhes realísticos de acontecimentos marcantes. Seus livros são para qualquer geração. Deviam ser obrigatórios nos currículos escolares, posto que a juventude conterrânea pouco ou quase nada sabe a seu respeito da história da Paraíba, cujas estações percorridas merecem registro perene na memória dos que vivem.

Celso Mariz escreveu e editou ATRAVÉS DO SERTÃO, em 1910, contando o que viu nos itinerários de sua peregrinação como inspetor de Ensino na Paraíba. Surgia o escritor com vocação para a sociologia e a história, descrevendo as localidades, seu passado e presente, figuras marcantes de sua progressão econômica e social. O livro seguinte, APANHADOS HISTÓRICOS DA PARAÍBA, editado em 1922, é um clássico, contendo o quadro histórico e geográfico do Estado, sua fundação, seu território, a guerra anti-holandesa, os acontecimentos merecedores de registro no século XVIII, a atuação da Igreja, o governo colonial, as revoluções, o império e o monarquismo, a política daqueles tempos, os governos e os legisladores, até à República.

Em 1939, o mestre lançou EVOLUÇÃO ECONÔMICA DA PARAÍBA, primoroso estudo sobre a nossa colonização e civilização agrária, desde os primórdios, começado pelas primeiras culturas praticadas, os engenhos nascentes e moentes, a penetração dos colonizadores no Brejo, Cariri e Sertão, a escravidão, o surgimento e pujança do algodão, as crises, o advento de novas lavouras e das indústrias, abertura de caminhos, estradas de rodagem e de ferro, o porto, a mudança das estruturas rudimentares de trabalho e produção, as conquistas tecnológicas e fatores internos e externos que as influenciaram, as secas e seus efeitos catastróficos, as obras de combate aos estios prolongados, as realizações administrativas e os esforços para a geração de rendas públicas e privadas, o desenvolvimento urbano, notadamente o da Capital, tudo ilustrado com dados estatísticos, constituindo trabalho de fôlego e fonte de consulta a quantos se interessem pela história do desenvolvimento econômico e social da Paraíba.

Recordo-me das equipes de engenheiros, economistas, sociólogos e outros profissionais, nacionais e estrangeiros, trabalhando na OPENO, sigla da Operação Nordeste, que precedeu da SUDENE. Todos buscavam e liam obras tidas como fundamentais à abordagem e conhecimento dos problemas nordestinos a serem objetos de prioridade para as ações governamentais. Aqui entre outras publicações, os técnicos se debruçavam sobre a PARAÍBA E SEUS PROBLEMAS, do imortal José Américo de Almeida, e EVOLUÇÃO ECONÔMICA DA PARAÍBA, de Celso Mariz, tida como eclética nos relatos objetivos sobre a nossa geografia, hidrografia, agricultura e pecuária, ocupação dos espaços, evolução dos contingentes de trabalho, volumes de produção, nascimento e desenvolvimento das comunidades urbanas e rurais, tudo seqüenciado com registros dos fatos, enriquecidos com dados estatísticos. Diziam os técnicos que a obre de José de Américo, os relatórios de Guimarães Duque, de José Augusto Trindade, o acervo de dados constantes dos arquivos do DNOCS, antigo IFOCS, além de outros tantos livros e trabalhos consultados, ofereciam subsídios valiosíssimos para a formação de uma política de apoio para o Nordeste. Particularizavam a riqueza do manancial de informes contidos na obra de Celso Mariz.

Os livros que se seguiram, escritos pelo mestre, foram IBIAPINA, UM APÓSTOLO DO NORDESTE (1942), logo relato da atuação do bacharel-padre em todo o Nordeste, fonte de consulta e informações pelo Vaticano, para o processo de beatificação ainda provável daquele sacerdote

 

Fonte: Faustino Teatino Cavalcante Neto ( Historiador )

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