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O menestrel Vital

Nascido no Cariri paraibano, Vital Farias rompe o silêncio, recebe homenagens de grandes nomes da música no Estado e conta detalhes de sua carreira, desde quando integrava o conjunto Os Quatro Loucos. Nascido no Cariri paraibano, Vital Farias rompe o silêncio, recebe homenagens de grandes nomes da música no Estado e conta detalhes de sua carreira, desde quando integrava o conjunto Os Quatro Loucos.

Por Patrícia Braz e Oswaldo Travassos*

Boa parte de sua vida e carreira podem ser conferidos em textos publicados na internet. Não é segredo para ninguém os caminhos traçados pelo menino cantador, filho de pais agricultores, que aprendeu a ler nos folhetos – e que mais tarde iriam ganhar o nome de cordéis consagrando seu lugar de destaque dentro da literatura nacional e internacional. Referimo-nos a Vital Farias, o menestrel, o arauto, o moço fazedor de versos sonoros que delineiam a face oculta da moça aqui chamada de ‘cultura nordestina’.

O faz com tal zelo que até dá a impressão de que é mesmo de uma mulher de quem fala em suas letras. De forma clara e direta, ou por meio de metáforas, não importa, sua música é repleta de poesia e a melodia que lhes dá são verdadeiras flores de cactos de inigualável beleza resplandecendo toda a claridade dos dias de intenso azul nos céus da caatinga adornados de intenso calor solar – cenários de uma infância feliz, mas dura, real.

É assim que vai se desenhando para essa repórter esse moço que agora me dedico a ouvir mais detidamente, ao passo que me deparo com a missão de traduzir, na forma de texto impresso, a entrevista concedida por ele ao jornalista, amante da boa música, Oswaldo Travassos, em oportunidade que só os ouvintes da rádio Tabajara AM e FM tiveram a chance de ouvir, em meados do ano passado.

O que fica impregnado em todo esse trabalho é a constante preocupação que Vital Farias tem para com a natureza. Vira e mexe, lá está ele, de volta, a falar sobre a natureza, o verde, as árvores, o planeta e o papel do homem face a tudo isso. E como diz bem o poeta Ezra Pound, como uma espécie de ‘antena da raça’. São quase 30 anos de carreira. Nesse tempo, Vital nascido na pequena Taperoá – cidade distante da Capital paraibana cerca de 250 Km –, cantou as coisas da terra como ninguém.

Mas nesse período teve também outras fases, especialmente, no começo da trajetória artística. Ele chegou a cantar junto com outros três amigos num conjunto chamado ‘Os quatro loucos’. Era composto por, além de Vital, Floriano, Cecílio Ramalho e Golinha. Eram os tempos do iê-iê-iê e, pelas forças circunstâncias da ‘lei da sobrevivência’, deu ao grupo certo tempo de trabalho.

Acontece que as raízes vitais do homem que cresceu vendo o pai lavorar iriam falar mais alto, e ele não deixou as memórias de lado. A face nordestina até parece gritar em seus ouvidos como a aridez das terras e a seca que afugenta os seus filhos, sem que antes, tenham-no contaminado com o seu cheiro, raça e sabor. Não se deixa fácil as suas fontes vitais. Vital não fugiu a elas. E uma prova disso, se é que é preciso, é a música ‘Saga da Amazônia’ – tem tantas outras, ressalte-se aqui esta em especial, apenas para fazer justiça devido a grandeza da composição citada.

Na entrevista a Oswaldo Travassos, Vital Farias conta que escreveu a música, uma obra em clara defesa a mata amazônica, a natureza, a sua flora e fauna, com uma espécie de alerta de um tempo que não tardaria e que hoje, infelizmente, se comprova: “os homens não se deram conta; não descobriram o que representa o avanço achando que poderiam passar um pito no planeta, e que isso não teria, um dia, uma cobrança. Acredito que os meios de comunicação de massa do Brasil, na sua grande maioria, ficaram a ver navios. A canção ‘Saga da Amazônia’ começou a ser escrita em 79, vazou para 80 e 81 e só terminei em 82”. Para Vital, o que se vê hoje nada mais é que a cobrança da natureza. “Ela agora veio cobrar; e ela não quer receber nem em real e nem em dólar…”, avalia.

Essa paixão toda pela natureza nasceu ainda nos tempos de menino. “Quando morava em Taperoá. “Lembro que uma vez encontrei no lixo uns pedaços de uma revista chamada ‘Realidade’. No texto falava-se sobre os irmãos Villas Boas e sobre aquela operação Xingu-roncador. Eu me identifiquei tanto com o trecho que li que decide, naquele dia, que iria viver num lugar como aquele quando eu crescesse. Iria me casar com uma índia, e viver no mato. Não conheço um cabra que goste mais de mato do que eu (risos). Isso tudo, na cabeça de menino, já era o início de um pensamento meu de viver uma vida mais simples, viver em paz; sempre quis viver em paz, num lugar onde as pessoas não tivessem qualquer tipo de coisa para poder se comunicar, viver; acho que o homem, o ser humano, tem que viver em comum acordo com a natureza, com a simplicidade”, pondera.

E continua: “acho que temos tanta tecnologia que isso já vem causando problemas. Por exemplo, eu sei que o celular é uma coisa boa, mas se o sujeito manda um recado por um fulano de tal, sem pressa nenhuma, porque a vida também não tem essa pressa, isso não tem valor? Quem inventou isso, a tal da pressa, foi o sistema capitalista. Esse mesmo sistema foi quem botou as indústrias na beira dos rios, jogando dejetos para irem embora para o mar, pensando que nunca mais voltariam e que não haveria cobrança nenhuma. Mas não é bem assim, não. Agora ela está ai, batendo na porta, cobrando as contas… De certa forma me sinto constrangido porque sou uma pessoa que tenho uma espécie de premonição desde criança. Essa coisa bateu e eu não medi para falar dela, porque na minha profissão eu tenho sido justo e honesto; mostrando a identidade do nosso povo que é grandioso”.

A essa altura, o menestrel faz uma dura leitura sobre a importância e o papel dos meios de comunicação. “Se a gente democratizar esse País e os meios de comunicação continuar do mesmo jeito, a gente não vai pra canto nenhum. Fica ai do mesmo jeito. A gente vê monopólios dentro do Brasil como se fosse um País dentro do próprio País. Aqui tem rede de televisão que o próprio Presidente da República teme; o sujeito mais importante no sentido do cargo … A saga da Amazônia tem essa missão. Ela nasceu dessa vontade de avisar, com antecipação, para deixar a natureza em paz; deixar a floresta em paz; o índio não quer ganhar muito dinheiro. Ele quer viver dia após dia. Ele vive da grandeza e da sabedoria de viver em equilíbrio com a natureza e ensina isso aos filhos e netos. Ele não mata cem macacos de uma só vez. Ele só mata um para comer naquele dia; no outro, ele vai lá e caça mais um. Se não encontrar, come outra coisa. As pessoas do sistema capitalista querem acumular, e quando a mercadoria faltar, ainda tê-la para vender mais caro, a preço de ouro – e acumular riqueza”, critica.

Nesse tom, juntos, Oswaldo e Vital relembram trecho da canção ‘Saga da Amazônia’ que fala que se a natureza tivesse pé – como se costumar dizer no adágio popular: pé de árvore –, não ficaria por lá, diante do perigo e dos maus tratos do homem. Eis, assim, trecho da música que reflete esse pensamento: “Fizeram logo o projeto sem ninguém testemunhar / prá o dragão cortar madeira e toda mata derrubar: / se a floresta meu amigo, tivesse pé prá andar / eu garanto, meu amigo, com o perigo não tinha ficado lá / O que se corta em segundos gasta tempo prá vingar / e o fruto que dá no cacho prá gente se alimentar? / depois tem o passarinho, tem o ninho, tem o ar / igarapé, rio abaixo, tem riacho e esse rio que é um mar”.

Levada a canção ao ar para os ouvintes poderem também refletir, em seguida Vital arremata: “a Amazônia é nossa, mas é também de todos do mundo. Ela tem que ser cuidada. É uma grandeza das mais bonitas. Se a Amazônia, há 30 anos, tivesse sido protegida; se algum País tivesse se indignado com o que estava acontecendo, tomado alguma atitude, mesmo que não fosse brasileiro – porque o governo brasileiro é muito refratário. De certa forma, ele só faz alguma coisa depois que outro vem e faz. Ai eles vão e imitam, talvez a Alemanha, junto com outros países, pudessem ter formado uma grande rede pra preservar, pra proteger… porque a Amazônia é nossa, mas não é pra nós acabar com ela, não; ela é nossa pra gente preservar. Se for pra acabar, não é nossa não, é de qualquer pessoa”.

E compara: “é como a minha casa. Ela é minha e dos meus filhos. Fui eu que conquistei como o meu trabalho; se eles não souberem utilizar a minha casa, ela é só minha. Há 30 anos, se a Amazônia tivesse sido cuidada, tanta coisa teria sido evitada: a morte de Chico Mendes; a morte da irmã Dorothy Stang, missionária americana; dos companheiros (o caso dos 17 sem terra, lá no Pará); o próprio Padre Josino e os companheiros que se indignaram como o Wilson Pinheiro, primeiro sindicalista da região da borracha, no Acre, na divisa com a Venezuela, e tantos outros”, citou.

Mas as reflexões de Vital não ficam só entorno da natureza, não. Ele também vê o homem inserido nela. Então, durante a entrevista, conta que vem trabalhando em uma epopéia na qual vai abordar a temática da raça negra. “É uma epopéia negra para o teatro com uma hora de duração, sem intervalos, que fala sobre o domínio do branco sobre o negro, das histórias do mundo, do sofrimento humano. É uma peça teatral, uma fantasia, um sonho. È a história de uma região da África para a qual eu dei o nome de País de Ébano, cuja descendência é negra e cujo povo vivia em paz”, comenta.

De acordo com Vital, um dia o povo desse lugar se vê surpreendido pelos brancos, americanos ou europeus, não faz diferença. Naquele momento existia um rapaz chamado Bussabá, de origem mulçumana que seria o próximo líder daquela região. Acontece que, com a invasão, todo o povo é preso; ele, Bussabá, ainda tenta se debelar, mas não consegue. Então resolve se refugiar na mata e lá formar quilombos (metaforicamente faz relação com a história dos Quilombos, no Brasil, no tempo da escravatura).

Segundo Vital, haverá o confronto desse povo liderado por Bussabá, mas outros elementos vão pontuar a história como o amor, a atração, e a traição, bem como a liberdade, aspectos que prometem dar a obra um rumo inesperado. O músico e compositor e também dramaturgo conta que começou a escrevê-la em 1990. “A peça é contada com cânticos de uma forma muita singela que até crianças poderão entendê-la. Comecei a escrevê-la em 1990, à mão; em 95, um amigo digitou pra mim a parte literária, no Rio; em 98, já vinha montando o estúdio em João Pessoa, e ai já fiz toda a orquestração, só que com fazendo uso de muita tecnologia. E não é assim que eu quero; quero pessoas, músicos tocando-a. Eu a quero mais humana. São naipes de trompas; violinos, 1º e 2º; violoncelos; contrabaixos; flautas; oboés; calarinetes e tudo isso tem que ter vida”, salienta.

Também entre os planos de agora Vital Farias se prepara para abraçar João Pessoa. Foram quase quinze anos sem tocar e cantar na Capital paraibana. Felizmente, tudo isso parece ter ficado para trás e novos tempos e ares ao de soprar. Aliás, já sopram. O artista, com residência fixa em João Pessoa há alguns poucos anos, fez um show no final do ano passado, no Cine Bangüê, no Espaço Cultural José Lins do Rego; e mais recentemente, se apresentou na Praça Antenor Navarro – um dos cenários mais bonitos e significativos do Centro Histórico da cidade. O show, que ele prefere chamar de ‘Kantoria dos 100 mil’, assim mesmo, com K ao invés de C, faz alusão aos quase 100 mil votos que o artista garantiu nas últimas eleições, na disputa por uma vaga no Senado. Pelo jeito, a política ainda faz parte dos planos do artista que lembra que sua obra, e vida, também reservam proximidade com a política.

E comenta: “fui candidato quase por uma imposição do partido, da Heloísa (Helena) companheira desde a época do PT; a coisa começou dessa forma. Foi importante, até para eu reconhecer – o que não tinha feito até então – o quanto as pessoas na Paraíba me respeitam, sabe? E é por isso também que eu resolvi voltar a cantar em João Pessoa. Cem mil votos não se arranjam facilmente, de baixo de uma urna só. São votos profundamente honestos, justos e de uma limpeza descomunal. Todos os votos são fruto do reconhecimento da minha vida pregressa, das minhas caminhadas pelo mundo. Tenho estudado convites, ainda ano âmbito da política, aqui em João Pessoa, e até mesmo, em Taperoá. Tenho que fazer alguma coisa par agradecer o apoio que recebei. Foram quase 50 mil votos em João Pessoa; outros quase 30 mil em Campina Grande; em Patos foram quase 5mil; Serra Branca cerca de 1,4 mil… Tem gente querendo dignidade, decência. E eu penso nisso”, completa.

Vital arremata a entrevista fazendo um apelo: “É preciso que a população preste mais atenção na geografia brasileira; ter pena dos bichos brutos; procurar ser mais humilde; tem que tirar os nossos filhos da frente da televisão, eles tão aprendendo muita besteira, cena de gente matando como se não saísse sangue; a terra está pedindo socorro e muito antes dela morrer, quem morre primeiro é a gente. Vou continuar fazendo minha arte, mas voltado para o homem e a natureza” E cita Sivuca, que costumava dizer-lhe: “só existe dois tipos de arte – a verdadeira e a falsa. A falsa a gente deixa pra lá e vai fazendo a verdadeira”.

Patrícia Braz é jornalista e atriz e Oswaldo Travassos é radialista e ator

taperoa.com
A União – Correio das Artes

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